quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Os curimbas do Rio de Janeiro

Segue abaixo uma matéria escrita pro Vilma Homero para o site da Faperj, publicada no inicio do ano passado. Vilma traz informações sobre o livro Samba e partido-alto - curimbas do Rio de Janeiro, de Denise Barata, publicado pela nossa EdUERJ.


Não é por acaso que o livro Samba e Partido-Alto - curimbas do Rio de Janeiro tem início com versos de Assis Valente. Ao abrir o livro com "Minha embaixada chegou,//Deixa meu povo passar,//Meu povo pede licença//Pra na batucada desacatar", a autora Denise Barata já dá algumas pistas sobre seu enfoque. Mais do que relatar uma história, ela procurou contextualizar praticas culturais cariocas, de origem africana, que mantêm uma característica marcante: a da oralidade.

A escolha do tema - samba e partido alto - nasceu de múltiplas inspirações. Espécie de desafio poético, em que os partideiros se enfrentam para ver quem versa melhor, quem improvisa melhor, o partido-alto continua bastante difundido pelos subúrbios e morros cariocas. "Sua estrutura de cantos de improviso em resposta a um estribilho mantém uma característica herdada dos cantos tradicionais africanos, ouvidos no Brasil desde o século XVI", explica a pesquisadora. Foi o que particularmente chamou a atenção de Denise. "Na história cultural do Rio de Janeiro, ele evoca a paisagem sonora africana, por muitos considerada sem lógica e sem arte, por nunca ter sido vista como música que tenha recebido influência européia e por isso continua sendo encarada de forma folclorizada, como algo sem qualidade", afirma Denise. E acrescenta: "Trata-se de um estudo sobre os cantos e as vozes do Rio de Janeiro, vozes que não se deixaram aprisionar. E também sobre o curimba, que tanto quer dizer cantar, cantar para os ancestrais, quanto a própria música. Enquanto em Salvadaor, a manuntenção das práticas africanas se deu pelas conversas com o orixás do candomblé, no Rio de Janeiro, as formasa analógicas fizeram essa ancestralidade se manifestar nos territórios sagrados do samba. Por isso, considero samba e partido-alto as curimbas do Rio de Janeiro".
Denise, a autora

Assunto de sua tese de doutorado na Pontifícia Universidade de Católica de São Paulo (PUC-SP), antes de ser publicado com recursos do programa de Auxílio à Editoração (APQ3), o tema suscitou várias indagações: como discutir o processo de criação musical, como e onde se aprendia a versar, e como, mesmo longe da indústria fonográfica, o partido-alto continua firme e forte nos quintais das comunidades cariocas?

No início, Denise confessa que entrevistou os partideiros. "Ficaram entrevistas muito formais. Então, resolvi adotar um outro olhar...Optei por realizar uma pesquisa-ação. Monarco é um contador de histórias, um livro vivo da Portela. Tantinho da Mangueira é outro. Todos eles mantém tanto a memória pessoal quanto a memória daquela comunidade, e transmitem suas tradições, cantando, tocando e dançando. Essa é a forma de oralidade africana, uma outra forma de manutenção de memória, que está no corpo, na voz, tanto quanto nas palavras."

Foi assim que Denise frequentou fundos de quintal e terreiros, teve longas conversas informais com os partideiros e também cantou, tocou - é clarinetista - e dançou em muitas festas. Nascida e criada em Bento Ribeiro, filha de mãe judia e pai negro, músico e pai de santo, a própria Denise é um exemplo do que fala:
"Na minha visão, essas culturas não se misturam, mas coexistem, formando uma identidade fluida, móvel."

Visão que segue na contramão de um conhecimento que persiste no Brasil quando o assunto é a diáspora africana. "Sempre pensei a música como conhecimento. Também queria discutir o conhecimento que se faz no Brasil sobre a diáspora africana, fundamentado num olhar hegemônico, ocidental, uma forma de pensar que acha conhece mais o outro do que ele próprio, que diz ao outro quem e o que ele é, a partir de um padrão europeu, excludente. Segundo esse olhar, samba e partido-alto "melhorariam" se incorporassem uma estética mais européia, "aperfeiçoando" aspectos da melodia, eliminando certos instrumentos de percussão e algumas vozes. Isto vale tanto para a estética quanto para a música. Queria explorar um outro tipo de conhecimento que se constrói no Brasil a partir da diáspora africana, Um conhecimento que não se dá por conceitos, mas por símbolos, pela experiência e a partir de um processo de iniciação".

Quando se pensa na indústria fonográfica é um outro problema. "Ao gravar, o partido-alto perde a vitalidade, já que sua marca é o improviso". Mesmo assim, alguns foram grandes sucessos no disco, como Vai Vadiar, de Monarco e Ratinho, na voz de Zeca Pagodinho, Timoneiro, de Paulinho da Viola; ou Quitandeiro, de Paulo da Portela e Monarco. "Tempos atrás, o produtor Milton Manhães reuniu cinco partideiros num estúdio - Candeia, Velha, Casquinha, Wilson Moreira, Anézio e João da Pecadora - e gravou o disco Partindo em cinco, tentando reproduzir em estúdio o clima de um roda de partido alto, que , na época, fez um enorme sucesso de público. A questão é que para os partideiros sobreviverem fazendo esse tipo de samba é sempre difícil..."

Para a pesquisadora, o trabalho permanece inconcluso. "Talvez porque não queira terminá-lo, em função do prazer que experimentei ao produzi-lo, É uma beleza que os ideólogos da construção de um projeto de identidade nacional na música popular rejeitam e tentam esquecer. Apesar disso, ainda hoje, os partideiros tentam fazer de seus gestos e de suas vozes negras e suburbanas a concretização de sua própria memória".

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ensaios sobre religião e cidadania

Cidadania, movimentos sociais e religião: abordagens contemporâneas, lançamento da EdUERJ, é uma coletânea de ensaios que enfoca as diversas facetas da religião em momentos singulares da história de uma país do terceiro mundo. Com organização de João Marcus Figueiredo Assis e Denise dos Santos Rodrigues, o livro remete a várias fases da história brasileira.

Alguns temas fazem alusão a situações bem atuais, como a abordada no ensaio "Favela e pacificação. Religião e Estado no ordenamento do espaço social", de João Marcus Figueiredo. Outro exemplo é "Ideologia político-religiosa x político-pragmática: o caso dos movimentos sociais no Brasil", de Nadir Lara Júnior, analisando a relação dos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra com a questão da fé.

Destaca-se igualmente "A Igreja e a ditadura militar", do conceituado sociólogo Ivo Lesbaupin. O autor sustenta que a atuação da Igreja mostrou-se corajosa, embora a instituição não houvesse se posicionado dessa forma imediatamente após o golpe militar de 1964.

Um dos valores mais propagados pela religião é a caridade. O manuseio político de ações assistencialistas inspira "Indivíduo solidário e colaborador: notas sobre a construção do conceito de cidadania em tempos neoliberais", de Gisele dos Reis Cruz. Os programas Comunidade Solidária e Comunidade Ativa, implementados na década de 1990, são focos da crítica da ensaísta.

O livro também aponta para o preconceito contra a religião, como em "A secularização do Brasil na Primeira República e a criminalização do espiritismo", de Adriana Gomes.

Os capítulos citados são exemplos da abrangência desta publicação, que conta ainda com outros autores para discorrer sobre o tema.

Fruto de uma escolha pessoal, mas de cunho político, a fé não se restringe a uma questão de foro íntimo. Como instrumento de mudanças ou de sustentação do que está instituído, ela é a complexa personagem que enriquece este lançamento da EdUERJ, transformando-o em um estímulo ao debate.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Livro da EdUERJ concorre a prêmio da FNLIJ

O livro Leitura, pesquisa e ensino, da professora Márcia Cabral da Silva, concorre ao Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), inscrito na categoria dedicada a livros teóricos. A obra, baseada em pesquisa e bem fundamentada, analisa aspectos relacionados ao hábito e ao ensino da leitura, refletindo sobre a história da sociedade brasileira em distintos momentos.

Os capítulos, que podem ser lidos de maneira independente,
são os seguintes:

1 - Bibliotecas populares: memórias, modos de leitura e acervos

2 - Dom Quixote das crianças: sobre a mediação e aspectos histórico-culturais da leitura

3 - A leitura dos jovens em um curso de formação de professores

4 - Leitura e leitores em circulação no Nordeste brasileiro na passagem do século XIX ao XX

5 - Leitura e ensino em dois manuais escolares: Terceiro livro de leitura, do Barão de Macaúbas, e A arte de aprender a ler, Duarte Ventura

6 - Leitura e educação para meninas e moças: a orientação católica e literária de Alceu Amoroso de Lima (1930-1950)

7 - O texto como aliado do professor das séries iniciais do Ensino Fundamental

8 - Projetos de leitura: planejamento e implementação

9 - Literatura na formação da criança e do jovem

10 - Leitura na escola e na vida em sociedade



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Recordando 2013: Um livro sobre Santa Cruz

Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da coroa, organizado por Carlos Engemann e Marcia Amantino, lançado pela EdUERJ, consiste em um minucioso trabalho de pesquisa histórica. Ao reconstituir a trajetória da antiga Fazenda de Santa Cruz, que existia no atual bairro de mesmo nome, o livro destaca o legado dos jesuítas ao patrimônio histórico, cultural e urbanístico da cidade do Rio. A narrativa, ágil, pode interessar principalmente a estudiosos de história e geografia.

A Fazenda de Santa Cruz foi marcada pelas diferentes administrações, tendo sido, em sua existência, jesuítica, real e imperial. Cada fase corresponde a uma parte do livro. Na primeira, aborda a administração jesuítica; a segunda trata do cotidiano dos escravos que ali trabalhavam; e, por último, enfoca os administradores do período em que a fazenda esteve sob tutela governamental, lusa ou brasileira.

O processo de coleta de dados reuniu pesquisadores de instituições universitárias do Rio (UFRJ, UFF e Universo), assim como oriundos das federais de Minas Gerais e de Pernambuco (UFMG e UFPE) e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul. A pesquisa baseou-se em documentação referente aos autos de inventários e sequestros da Fazenda em diferentes anos, entre 1759 e 1801.

Alguns dados históricos podem até remeter o leitor a casos atuais, demonstrando que determinados problemas da sociedade encontram raízes em outros tempos. Por exemplo, há um tópico que trata da corrupção no matadouro da Fazenda nos anos 1800. A narrativa conta, no capítulo dedicado à administração imperial: “A falta de anotações em livros-caixa era apenas uma forma de não ter de prestar contas à Câmara e esconder as fraudes, prática também verificada no matadouro de São Cristóvão”.

Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da coroa conta uma história que tem políticos, jesuítas, índios, escravos, comerciantes e trabalhadores como personagens. E um cenário em um dos mais representativos bairros do município do Rio de Janeiro.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os caminhos da educação franco-brasileira

Lançamento da EdUERJ, Caminhos da educação franco-brasileira: memórias e identidades, organizado por Ana Luiza Grillo Balassiano e Lia Faria, traz à tona os resultados de estudos apresentados durante o Seminário Franco-Brasileiro de Aprendizagem do Francês, Identidades Plurilíngues e Interculturalidade. O evento, realizado como atividade integrante do Ano da França no Brasil (em 2009), contou com pesquisadores da Uerj e de outras universidades brasileiras, além de representantes do Centro de Pesquisa Interuniversitário Experice, da Universidade de Paris.

A coletânea contempla os seguintes eixos temáticos: as escolas republicanas e seus professores, as experiências dos liceus e as pesquisas autobiográficas na França e no Brasil. Com textos de pesquisadores brasileiros e franceses, leva a uma investigação dos modelos pedagógicos do passado e do presente, constituindo-se uma experiência de intercâmbio cultural. Entre os aspectos abordados, estão as representações femininas na escola republicana, a antiga prática da viagem pedagógica, a pesquisa biográfica no campo da escola e da aprendizagem, entre outros.

Além das áreas da educação e da pedagogia, os ensaios também apresentam ingredientes de história, sociologia, geografia cultural. Em comum, os textos trazem aspectos que aproximam (ou contrapõem) o Brasil e a França, principalmente nas questões relacionadas à língua, à cultura e ao ensino. Com isso, o lançamento da EdUERJ pode ser uma indicação para estudiosos das ciências da educação e também aos interessados em pesquisar sobre as relações franco-brasileiras.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lembrando 2013: A ciência do futuro e o futuro da ciência

A Ciência do futuro e futuro da ciência, de Jorge Luiz dos Santos Junior, lançamento da Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro(EdUERJ), trata de uma área tão em voga quanto controversa: a nanociência. É um campo de estudos que lida com partículas de tamanho tão reduzido que podem atravessar tecidos como o do corpo humano. Esta tecnologia pode trazer muitos benefícios para a medicina, a informática, o meio ambiente e tantas outras áreas, contudo também se faz acompanhar de riscos, o que implica uma discussão acerca de seu uso, de seus limites éticos, e uma regulamentação especifica.

Algumas questões nortearam o autor. Como tem evoluído a parceria entre a comunidade cientifica e empresas? Quem são os atores sociais que fazem parte das decisões e participam dos comitês que selecionam os projetos aptos a serem financiados? Quais os resultados da política cientifica e brasileira para o desenvolvimento social e ambiental, assim como para a prevenção de riscos?

Ao buscar estas respostas, o pesquisador se propõe a compreender a teia de relações estabelecidas entre programas governamentais, grupos de pesquisa, movimentos sociais e empresas. Para isto, vários procedimentos foram utilizados em sua pesquisa. Por exemplo, foram mapeados e analisados não só os editais de pesquisa de nanociência e nanotecnologia lançados pelo CNPq no período de 2000 a 2010, como também os projetos selecionados.


A ciência do futuro e o futuro da ciência revela lacunas das políticas públicas e uma comunidade de pesquisa da área, que se mostra de caráter pouco multidisciplinar, assim como excessivamente reticente em consideração aos riscos sociais e ambientais.  Com isto, Jorge Luiz dos Santos desenha um quadro político que conta com a participação dos atores sociais externos às redes de pesquisa, e que necessita de um controle dos retornos sociais dos investimentos públicos nestas atividades.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

EdUERJ participa de Feira de Editoras Universitárias

A Editora da Uerj é uma das expositoras da décima Feira do Livro Universitário da UFF, que será realizada de 18 a 21 de março de 2014, das 10h às 19h.

O evento será no campus Gragoatá, Bloco D, em Niterói. Além da EdUERJ, participam outras editoras afiliadas à Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU).


Na ocasião, todo livro será oferecido com 50% de desconto.

Certamente, uma boa opção. A dica é procurar o site da ABEU e ver que editoras são afiliadas. Há muita vida inteligente pulsando fora do lugar comum das grandes editoras.

Entre os lançamentos oferecidos pela EdUERJ durante o evento estão os que saíram em 2014, tais como Caminhos da Educação Franco-Brasileira (Orgs: Lia Faria e Ana Luiza Grillo), Estudos sobre interação (Orgs e tradução de Maria Claudia Coelho)
Currículo, Políticas e ação docente (orgs de Maria de Lourdes Rangel e Maria Manuela Alves Garcia), entre outros.

Os lançamentos estão em www.eduerj.uerj.br.

Já, se você quiser saber sobre que editoras estão participando da ABEU e podem participar da Feira, o caminho é por  aqui:


www.abeu.org.br.





 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Estudos sobre interação traz ensaios seminais da sociologia

Relacionamentos humanos permeiam a sociedade e merecem um olhar acurado da psicologia, da psicanálise, assim como de estudiosos de comunicação. Contudo, esse campo não é menos caro às ciências sociais, que se propõem a compreender os mecanismos que regem as interações entre seres humanos no cerne dos diferentes grupos da sociedade. Textos de referência nessa área agora podem ser conferidos no lançamento da EdUERJ, Estudos sobre interação: textos escolhidos, com organização e tradução de Maria Claudia Coelho.

Estudos sobre interação apresenta sete ensaios, com autores clássicos, como Herbert Blumer, Georg Simmel, Everett C. Hughes e Erving Goffman. A eles, somam-se teóricos contemporâneos, como Arlie Russell Hochschild e Jack Katz. Finalizando, um ensaio de Anthony Giddens sobre a obra de Goffman.

São artigos como "A sociedade como interação simbólica", de Herbert Blumer, que tem um papel-chave dentro da antologia, pois permite que se percebam, sob uma ótica mais lúcida, o papel e a proposta do interacionismo dentro do campo da sociologia.

Blumer dedicou-se ao interacionismo
Para exemplificar, enquanto áreas como a psicologia e a psicanálise procuram interpretar as motivações de um indivíduo, o olhar proposto pelo interacionismo é outro. Para Blumer, o enfoque reside em como os indivíduos constroem a ação individual ou coletiva, o que ocorreria por intermédio de uma interpretação das situações com as quais se deparam.

Outro aspecto vital ao interacionismo destacado por Blumer é que o ser humano está sempre enviando mensagens e diretrizes para si mesmo, exercendo uma "autoindicação". E, ainda que isolada, uma pessoa pode interagir com outra. Nesse caso, um exemplo seria o de alguém se embelezando para um encontro. "As pessoas não agem em relação à cultura, à estrutura social, ou coisas semelhantes, elas agem em relação a situações", frisa Blumer. "O individuo observa as coisas, avalia-as, dá-lhes significado e decide agir com base nesse significado", explica no ensaio.

Simmel: pioneiro da sociologia
Outro artigo importante da seleção criteriosa de Maria Claudia Coelho é "A tríade", de Georg Simmel, abordando, em uma interação, "o significado sociológico do terceiro elemento". Vale citar igualmente "As boas pessoas e o trabalho sujo", de Everett C. Hughes, que, ao mirar o holocausto provocado pelos nazistas, faz a seguinte indagação: como esses milhões de pessoas comuns (referindo-se aos civis alemães) puderam viver em meio a tanta crueldade e tantos assassinatos sem que houvesse um levante geral contra isso e contra as pessoas responsáveis? Essa questão não pretende demonizar os alemães, mas propor uma reflexão sobre a participação de cada um de nós em meio a situações-limite.

Em Estudos sobre interação: textos escolhidos, encontra-se uma sociologia interacionista que oferece argumentos para debater tópicos como as dinâmicas de formação de grupos, os estudos das emoções e as tessituras que formam as dimensões subjetiva ou privada da vida individual. O resultado conduz o leitor a uma empreitada pela cercania da sociologia. Assim, a obra torna-se indicada, sobretudo, aos interessados em compreender os fenômenos sociais.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Quem conta a história das ciências?

Agora falando de um dos livros lançados em 2013!

Desenvolvida durante muito tempo à margem dos departamentos de história ou da ação dos historiadores, a história das ciências só começou a apresentar características específicas em um processo iniciado no final da década de 70. As precondições que marcaram o surgimento dos estudo de ciência, as sciencie studies, são o objeto de estudo de Carlos Alvarez Maia, em História das ciências – uma história de historiadores ausentes, lançamento da Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EdUERJ). 
A princípio, a história das ciências era área ocupada por filósofos e cientistas, o que restringia o entendimento sobre sua natureza. Era necessário compreender as descobertas científicas não somente integrando a linha evolutiva da área, mas percebê-las como parte de um panorama político e social de uma época. Afinal, presumir que os cientistas e pesquisadores não fizessem parte da sociedade tiraria a qualquer credibilidade na construção da história dos saberes científicos.
O livro de Carlos Alvarez Maia remonta a este processo: o período de 1920 a 1970, com as linhas de pensamento que conflitavam, ao se buscar descrever a trajetória da evolução dos saberes científicos. Um exemplo de postura que atrasou o surgimento das sciencie studies: durante bastante tempo, os cientistas, que se dedicavam a esta narrativa da evolução científica, compartilhavam da teoria de que as influências sociais como as ideologias ou crenças contaminariam o saber puro, prejudicando a verdade científica. Contudo, se por um lado, o excesso de ideologias pode deformar uma descoberta ou levar a manipulações, por outro, esta utopia do saber imaculado também traz graves distorções, principalmente quando se deseja organizar a sucessão de fatos em uma narrativa. Qual seria o motivo de a ciência estudar determinados assuntos, se não fossem prioritários em determinadas fases da civilização, o que inclui a facilidade de se conseguir um aporte financeiro?  Então, se não os cientistas, quem deve responder pela história da ciência?
Além de descrever panoramas que podem contribuir para compreender o surgimento dos science studies, o autor também questiona porque no Brasil ainda existe resistência por parte de historiadores em se dedicarem à história da ciência, área que hoje congrega sociólogos e outros cientistas sociais. Baseado em cuidadosa pesquisa, “História das ciências” traz fatos e propõe questões, inserindo-se como uma contribuição para a percepção da ciência como um objeto histórico.



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Livro observa influência da África na cultura e na arte brasileiras (RELEASE OFICIAL)

A África está no Brasil diariamente, rotineiramente. É perceptível a onipresença das culturas africanas em práticas cotidianas e a influência que exercem em inúmeras criações, seja no mainstream ou no underground. No hip hop, nos museus, na religião, no artesanato e em muitas outras representações.
Observar de forma minuciosa os caminhos dessas expressões culturais, indo além da questão da etnia, é a proposta de Roberto Conduru em Pérolas negras - primeiros fios: experiências artísticas e culturais nos fluxos entre África e Brasil, lançamento da EdUERJ.
Em 42 ensaios, o autor tece reflexões sobre o legado africano para a sociedade brasileira. São analisadas diferentes expressões culturais, almejando encontrar as Áfricas genuinamente brasileiras que permeiam a cultura e podem se expressar mesmo em artistas que não sejam afrodescendentes. 
Para isso, observa criações como as gravuras de Oswaldo Goeldi, as pinturas de Di cavalcanti, as artes plásticas de Rubem Valentim ou Lygia Pape, os ensaios fotográficos de Mário Cravo Neto e outros exemplos. Além de analisar obras específicas, o autor examina o processo como um todo.
"Na sua maioria, os diálogos com o universo cultural afro no Brasil focam nas religiões de matrizes africanas e na problemática social da negritude", explica Robeto Conduru no capítulo "Entre o ativismo e a macumba - arte e afrodescendência no Brasil contemporâneo".
Com uma abordagem multidisciplinar, com incursões na antropologia, na sociologia e em outras áreas do conhecimento humano, Pérolas negras é um livro indicado sobretudo aos estudiosos da arte, da história da arte e da cultura, com ênfase nas questões da africanidade e da afro-brasilidade.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Começando 2014 com livros na área de educação

A EdUERJ acaba de lançar dois livros que podem ser bem atraentes para os que estudam ou transitam na área da educação.

O primeiro é Currículo, políticas e ação docente, organizado por Maria de Lourdes Rangel Tura e Maria Manuela Alves Garcia. O livro se divide em duas seções, a saber: Abordagem teórico-metodológicas e Políticas de currículo e ação docente. É resultado do Projeto de Intercâmbio e Pesquisa em Políticas de Currículo, financiado pela CAPES. Participaram pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da UERJ.São 14 capítulos, de autores diversos, enfocando as maneiras às vezes até conflitantes de pensar a questão do currículo no âmbito das políticas educacionais.







O outro lançamento é Estratégias Educacionais diferenciadas para alunos com necessidades especiais, organizado por Rosana Glat e Márcia Denise Pletsch. Aqui o foco é a educação inclusiva, tratando principalmente do Plano Educacional Individualizado (PEI), instrumento que começou a ser utilizado na Europa e nos Estados Unidos para facilitar a adaptação dos alunos portadores de necessidades especiais. Entre os temas abordados estão estratégias pedagógicas de inclusão, como o ensino colaborativo e a aprendizagem mediada, e a atuação da escola como parceira no processo que prepara o aluno com deficiência para o mercado de trabalho.


São dois lançamentos que podem interessar a pesquisadores em educação, estudantes de pedagogia ou mesmo a professores de outras áreas que gostem de refletir sobre temas vitais ao cotidiano docente.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Experiência opaca enfoca literaturas argentina e brasileira

Acabando o ano e não resisto a falar de um livro muito interessante, de 2012. Nada mal olhar um pouquinho para trás, antes que cheguem as novidades, os livros de 2014. Antes que eles nos enfeiticem.
Quero falar de A experiência opaca – literatura e desencanto, de Florencia Garramuño, lançamento da EdUERJ, com tradução de Paloma Vidal. Um trabalho que enfoca as literaturas argentina e brasileira contemporâneas não só como objeto de estudo, mas como um vasto campo de experimentação teórica. Para isto, a autora utiliza concepções, como as de Lygia Clark e Hélio Oiticica, que pressupõem que a arte como um convite à experimentação, pronta a modificar o público que a consome, oferecendo e recebendo novos significados.
Não por acaso, Florencia invoca uma fala do personagem Rodrigo, oriundo de “A hora da estrela”, de Clarice Lispector:
“Transgredir meus próprios limites, me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que esta me ultrapassa.”
Como exemplo para explicar a interação entre arte e realidade, Florencia recorre a Hélio Oiticica, extraído em “Anotações sobre o Parangolé”: “Museu é o mundo, a experiência cotidiana”.
Esta é a filosofia que permeia este Literatura Opaca. Nele, a professora nos guia por autores cuja criação literária arranca o sujeito de si mesmo, desfilando personagens eventualmente sem nomes, protagonistas que se fundem, sugerindo a intensificação de estados emocionais e caminhos fragmentados. Para Florência, a escrita está “mais próxima de uma ideia de organismo vivo, irracional, que respira, do que de uma construção acabada...”.
A literatura analisada, seja brasileira ou argentina, não surge impondo conhecimento ou saberes, mas sugerindo o precipício do gozo e da fantasia, quiçá do sofrimento. Nesta aventura, Florencia enumera Clarisse Lispector, João Gilberto Noll, Ricardo Zelarayan, Beatriz Sarlo, Osvaldo Lamborghini, Silviano Santiago, Ana Cristina Cesar, entre outros.
Um dos destaques é a abordagem do lado histórico de dois países do terceiro mundo marcados pela ditadura. Um exemplo é o capítulo 2, “Um contexto: o desencanto do moderno”, observando o aparente apogeu, seguido de esgotamento, da hegemonia cultural da esquerda nos primeiros anos da ditadura tanto no Brasil quanto na Argentina (esgotamento “apressado” pelo AI-5, no nosso caso). O desdobramento é a encruzilhada, surgida posteriormente: a arte deve ater-se ao momento político de seu país, tornando-se, por vezes, doutrinária? Ou seria possível uma manifestação cultural política e autônoma?
Estas e outras questões estão em A experiência opaca – Literatura e desencanto, de Florencia Garramuño, coordenadora do Programa de Cultura Brasileira da Universidade de San Andrés, em Buenos Aires, indicado, sobretudo, para os estudiosos de literatura latino-americana.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

EdUERJ lança novo volume de Geografia Cultural - uma antologia

Geografia Cultural – uma antologia - volume ll, organizado pelos professores Zeny Rosendahl e Roberto Lobato Corrêa, marca pela diversidade. Com assuntos como religião, simbolismos urbanos, cinema e literatura, o lançamento da EdUERJ enfatiza uma verdade que transparece em seus capítulos. O fato de que o ser humano e suas manifestações culturais devem ser compreendidos dentro do contexto da sociedade ou do ambiente onde se desenvolvem.
 
Os textos distribuem-se em cinco partes: O urbano e a cultura; Formas simbólicas e espaço; Espaço e religião; Festas e espaço; Identidade e território; e Cinema e literatura.
 
O resultado deve interessar sobretudo ao estudante de graduação, que encontrará artigos como o de Roberto Lobato Corrêa sobre shopping center e suas construções como artifícios para estimular o consumo. A literatura também comparece, na análise de Gabriela Rodriguez Fernandez sobre Londres, tendo como referência o cenário distópico concebido pelos escritores Aldous Huxley, em Maravilhoso mundo novo, e por George Orwell, em 1984.
 
No âmbito da religião, Maria da Graça Mouga e Sandra Carneiro tecem reflexões sobre o magnetismo espiritual que os santuários exercem sobre os peregrinos.  Já Zeny Rosendahl vê a tríade espaço, política e religião, exemplificando com dados sobre a Igreja católica no território brasileiro.
 
Outros destaques são “Eu não acredito em deuses que não saibam dançar a festa do candomblé: território encarnador da cultura”, de Aureanice de Mello Corrêa, e a “As questões de identidade em geografia cultural – algumas concepções contemporâneas” de Mathias Le Bossé, professor da Kurtztown University of Pennsylvannia. Este último saiu originalmente em edição da revista Géographies et Cultures, de 1999, e permanece representativo do gênero.
 
Geografia Cultural – uma antologia Volume II fala do homem, da cultura e dos caminhos, que podem se desenhar como cenários de terra ou cimento, mas também como riquezas do pensamento humano.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um olhar etnográfico sobre os adeptos da alimentação natural

Como pensa uma pessoa que consome apenas produtos orgânicos? Ou o que motiva alguém a evitar a ingestão de carne? Engana-se quem acredita que os adeptos da alimentação natural procuram apenas uma vida com mais saúde. Não raro, suas escolhas representam razões ideológicas que se articulam como uma filosofia de vida. Investigar as linhas de pensamento deste grupo foi o desafio que a professora Maria Claudia da Veiga Soares Carvalho propôs-se em Bricolagem Alimentar nos estilos naturais, lançamento da Editora da Uerj.

A autora pesquisou as diferentes vertentes de alimentação natural e seus adeptos no Rio de Janeiro. Dentre as práticas naturais de alimentação, destacou a linha vegana e a do alimento vivo. Os primeiros restringem sua dieta a alimentos de origem vegetal ou fungos, já os segundos baseiam sua alimentação em sementes e alimentos crus. Para a autora, a preferência por uma dieta natural é uma ideia que surge “simbolicamente como resistência ao fast food, refletindo uma tensão com o industrialismo, especificamente com o seu caráter lucrativo e o consumismo” Esta linha de pensamento conjuga a pressa, a violência e a desigualdade social como antagonistas de um pensar que valoriza a alimentação natural, a ecologia, o artesanal e utopias.

Os capítulos apontam para os valores que os naturistas atribuem à sua relação com os alimentos. Como o de sacralização da natureza, traduzido em ações como afastar-se dos agrotóxicos e aditivos alimentares contidos nos produtos industrializados. Não ingerir carne também insere-se como uma crítica à violência e aos sofrimentos causados aos animais. Outro signo que Maria Claudia da Veiga detectou é o da contracultura com base nos ideais dos anos 1960. Neste caso, exaltam-se os direitos das minorias e a liberdade de expressão em oposição às “imposições do sistema” e às urgências do capitalismo. A simpatia pela contracultura demonstra a consciência do que significa ser partidário de uma alimentação natural em uma sociedade que é carnívora em mais de um sentido.

Bricolagem Alimentar é um conceito adaptado da proposta sócio antropológica que Lévi-Strauss chamou de bricolagem e, no caso deste livro, equivale à experiência de organizar o universo simbólico dos significados dos alimentos na vida das naturalistas. O campo etnográfico é basicamente composto pela classe média do Rio de Janeiro (às vezes não pelo poder aquisitivo, mas pelos hábitos) e a estratégia escolhida foi a dedesnaturalizar: interpretar o significado dos alimentos, e, principalmente “estranhar aquilo que era familiar ou natural a essas coisas”.

Indicado a estudiosos de nutrição social, o livro é um estudo etnográfico que serve de estímulo também para aprofundar uma reflexão sobre os hábitos alimentares do homem urbano em nossos tempos

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Boas intenções?

"A colaboração lhe bate à porta...", de Ana Lúcia Vieira, publicado pela EdUERJ traz à tona um tema pouco exporado: a visitação social, prática que fazia parte do cenário de desenvolvimento capitalista industrial e da expansão urbana no fianld o século XX. O livro esmiúça a atuação das visitadoras sociais em uma companhia têxtil do Rio de Janeiro e desnuda as motivações ideológicas que comumente ficavam menos à vista do que as aparentes boas intenções.

As visitadoras sociais retratadas atuavam junto aos operários da Companhia Nova América, durante o período de 1944 a 1953. A visitações, objeto do livro da EdUERJ, acontecia em diversos espaços: na fábrica, na Vila Operária Ciedade-Jardim Nova América e nas dependências da Associação Atlética Nova América. Com a crescente industrialização do país, também aumentava o interesse do Estado e dos empresários em promoverem a atividade das visitadoras. para Ana Lúcia Vieira, era possível, "detectar nessas práticas uma rede muito maior de estratégias de poder"
As visitadoras orientavam em relação à saúde, higiene, alimentação, organização do lar e relações familiares, com base em discursos médicos, higienistas e pedagógicos, de onde também provinham a inspiração para os tratamentos adequados. A gama de atividades das visitadoras era extensa: acompanhamento de gestantes, orientação nos cuidados com os recém-nascidos, encaminhamentos as crianças maiores às creches da fábrica e determinação de hábitos alimentares e de higiene. Entre outras atividades, buscava-se também compreender a vida pregressa do operário, com o objetivo de tecer um diagnóstico de possíveis desajustes sociais.

Entre as principais atividades das visitadoras, o livro enumera a fiscalização do uso dos serviços públicos e sociais disponibilizados pelo Estado e pela empresa aos operários, o monitoramento das vidas particular e profissional dos operários, e finalmente, a doutrinação destes aos valores instituídos como os mais adequados ao trabalhador brasileiro.
Ao avaliar a visitação, a autora considera que “a urgência de medidas que assegurem um mínimo de bem estar a indivíduos e grupos não pode se transformar em álibi para intervenções desmedidas no dia a dia das pessoas”. Estratégias de poder sutis, mas eficientes que colocam em pauta a eterna questão sobre os limites do estado no que tange à vida particular do cidadão. Meta revelada pela autora: espera que sua pesquisa “possa estimular um olhar inquiridor sobre as políticas públicas e sociais do tempo presente.”

 

 

 
 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O lado mais instigante da geografia

Carl Sauer : pioneiro
É impossível pensar em assuntos amplos como religião, literatura, política e cinema sem delimitarmos um cenário onde a ação se passa. Por exemplo, ao falarmos de religião, o contexto será totalmente diferente se abordarmos a Índia ou o Brasil. Assim como o cinema americano também é distinto daquele que é feito na Argentina. O ser humano e suas manifestações culturais não podem ser interpretados fora do contexto da sociedade ou do ambiente onde foram criados.
Esta observação sobre a relação dos grupos sociais e seu respectivos habitats é o lado mais instigante da geografia, e o foco de Geografia Cultural – uma antologia volume ll, organizado pelos professores Zeny Rosendahl e Roberto Lobato Corrêa, lançamento da EdUERJ.
Os artigos foram selecionados principalmente da Coleção Geografia Cultural, também editada pela EdUERJ, que tem mais de 20 títulos publicados, alguns fora de catálogo.  A antologia enfoca as duas linhas principais da geografia cultural: a baseada em Carl Ortwin Sauer, marcada pelo lançamento de “A morfologia da paisagem” em 1925, e a nova geografia cultural, vertente que ganhou força nos anos 1980.
Para ilustrar, o ponto de vista saueriano enfoca a cultura como um conceito amplo incluindo até aspectos mais plurais como a moral e as leis vigentes. Já pelo olhar interpretativo da nova geografia cultural, a cultura é a representação de nichos culturais, que surgem nem sempre com rígidas delimitações espaciais.  As duas visões às vezes divergem, mas também podem ser complementares. Neste volume predomina a linha da nova geografia cultural.

A antologia divide-se em cinco partes: O urbano e a cultura; Formas simbólicas e espaço; Espaço e religião; Festas e espaço; Identidade e território; e Cinema e literatura.

O urbano, quase sempre associado ao progresso
Mesmo quem não é da área de geografia pode ler, tem relação com comunicação, história, antropologia, etc. É o homem modificando o meio e o meio modificando o homem. Uma questão não tão simples, mas que rende artigos bem oportunos, como o texto de Roberto Lobato sobre shopping center e suas construções como artifícios para estimular o consumo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Fotos da Festa da Ciranda


 Festa da Ciranda na sexta-feira, 22 de novembro. Com Claudia Roquette-Pinto, Italo Moriconi e Paulo Henriques Britto.

O público prestigiou o debate e a leitura de poesia na Casa de Leitura Dirce Cortes Riedel.






 




O poema, lido em voz alta,
oferece uma nova experiência ao público.

Só ouvindo para crer.

Vale lembrar que os dois poetas convidados são protagonistas  da edição da Ciranda da Poesia "Claudia Roquette-Pinto por Paulo Henrique Britto", publicado pela EdUERJ.

Fiquem de olho, porque aqui vamos noticiar
as próximas edições da Festa da Ciranda.








terça-feira, 19 de novembro de 2013

Festa da Ciranda: próximo 22 de novembro





Na próxima sexta-feira 22 de novembro, mais uma edição da Festa da Ciranda. Estou reproduzindo ao lado o convite, assim como uma poesia de Claudia Roquette-Pinto, que transcrevi do volume Claudia Roquette-Pinto por Paulo Henriques Britto, da coleção Ciranda da Poesia, publicado pela EdUERJ. Aguardo vocês lá!



 
Jazz
 
A noite tece ao redor
há uma lua uma abó
bada um rosto de lilian gish
que alguém deixou de propósito
atrás da mureta a
aspereza azul levita
e torna a afundar
abrindo a prata e ror nessa hipnose
correm as notas pela escada
pérola    as teclas
os degraus
eis:             e depois
um sax desperta flores nos quadris.
 
 
de que lugar de mim verto esse caos?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

“Além dos limites”: ensaios que valorizam o ingrediente humano

Além dos limites – ensaios para o século XXI, lançamento da Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EdUERJ), é fruto de cooperação acadêmica entre a Uerj e a Universidade de Winnipeg, no Canadá. O livro traz reflexões sobre aspectos da arte e da cultura contemporâneas, privilegiando um leque amplo, que inclui estudos não só sobre manifestações artísticas, mas também sobre economia, capitalismo e globalização mundial.
Organizado pelos professores Maria Conceição Monteiro, Guillermo Giucci e Neil Besner, o livro está em sintonia com o fato de que no mundo globalizado as diferentes áreas de conhecimento se contaminam. Contudo, o cruzar de limites sugerido pelo título do livro não se refere somente à multiplicidade de assuntos tratados (e à forma como intercambiam-se), mas também à nacionalidade heterogênea dos autores, ocasionando um livro multilíngue, com textos em português, inglês e espanhol. Os artigos são assinados por Alckmar Luiz dos Santos, Barry M. Katz, Bernard McGuirk, David Martin-Jones, Efraín Kristal, Ferreira Gullar, Gabriel Galli, John Urry, Juan Grompone, Manuel Antônio de Castro e Paul Davidson.
São debatidos a literatura, o cinema, a música, o design, a tradução, a reinvenção da arte (aqui em ensaio de Ferreira Gullar). Ao falar destas expressões artísticas, os autores versam também sobre um mundo conectado, em que as novidades vão se substituindo umas às outras, em velocidade crescente. Esta é uma preocupação recorrente nos ensaios selecionados.

No capítulo Reinvenção da arte, Ferreira Gullar argumenta que a busca incessante de novidades conduziu-nos “à desintegração das linguagens artísticas”, propondo que estas devem reinventar-se. Já em seu artigo sobre literatura, Alckmar Luiz dos Santos sugere: “deixemos a velocidade para a máquina, a nós resta o prazer de pensar”. O resultado não aponta para caminhos, mas para novas formas de pensar sobre o cotidiano.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O futuro do livro é novo e livre (Seminário Fiocruz - parte 1)

Como vamos autografar um livro digital?
No dia 8 de novembro, como parte do seminário em homenagem aos 20 anos da Editora Fiocruz, duas palestras movimentaram o evento: a do editor executivo da EdUERJ, professor Italo Moriconi, e a do coordenador do Programa SciElo, Abel Packer. Como coordenador da mesa, participou Domício Proença, imortal da Academia Brasileira de Letras.

Abel Packer iniciou o encontro, ressaltando o fato de que o Programa SciELO agora também inclui livros em sua plataforma digital. Em seguida, expôs sua visão sobre o momento atual do livro:

- O que importa é o conteúdo e não o suporte em que ele está. Com o material corretamente formatado, é possível ler na China ou em qualquer lugar. O livro é uma entidade de transmissão de conhecimento e, como uma entidade em si, liberta-se do suporte do papel. 

Em termos de produção científica mundial, ele detecta que um dos problemas das editoras universitárias brasileiras está na língua portuguesa, e da pouca visibilidade desta na web.

Para o professor Italo Moriconi, embora o futuro do livro acadêmico passe pela questão digital, “a pessoa que está terminando sua pesquisa ou mesmo a que está fazendo um doutorado, em determinados momentos vai precisar do livro impresso como suporte”.

E acrescenta citando uma distinção:

- As pessoas ainda valorizam o livro e o jornal impressos. Uma coisa é ser viral na internet, outra é ser uma referência na mídia impressa.

Para ele, o panorama atual é de transição:

- O digital ainda não deslanchou. É uma tendência que ainda vai crescer, mas no Brasil a velocidade é menor. O problema é a quantidade de leitores e também de acesso ao computador. O digital implica uma mudança civilizacional. É uma mudança antropológica, o timing ainda não dá para prever.

Em seu aparte, Domício Proença Filho citou o fato de muitas vezes uma tiragem de 3.000 exemplares demorar anos até se esgotar, em se tratando do mercado editorial brasileiro. Observou a realidade digital, em que é possível conter uma biblioteca dentro de um tablet. Também aludiu às novas gerações, que crescem acostumadas às linguagens dos computadores.

Otimista, trouxe uma perspectiva:

- Hoje o mercado está exigindo a presença da língua portuguesa, ela está tentando aparecer.

E finalizou as atividades do dia citando o poeta espanhol António Machado:

- O caminho se hace al andar