quarta-feira, 1 de abril de 2015

Dau Bastos aposta no convívio entre o digital e o impresso

Dau Bastos: "o importante é ter acesso ao texto"

O Blog da Editora da Uerj entrevistou o escritor e professor de literatura brasileira da UFRJ, Dau Bastos. Ele contou mais sobre o recente lançamento da EdUERJ, "V Encontro do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea", do qual é um dos organizadores. 

Blog: Oi, professor. Que paralelo você traçaria entre o Encontro do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea realizado em 2014 e o dos anos anteriores?

Dau Bastos: A quinta edição do encontro não apresentou grandes mudanças em relação às anteriores, mas comprovou a pertinência de cultivarmos amplamente a conversa num evento dedicado a obras de autores em atividade e frequentado majoritariamente por estudantes. Recebemos mais de duzentos pesquisadores de diferentes estados da Federação, entre alunos de graduação, mestrado e doutorado. Como as mesas-redondas se fazem de entrevistas públicas seguidas de debates e as tardes são reservadas a comunicações, a animação foi especialmente grande. Outro motivo de alegria foi a qualidade dos textos recebidos posteriormente, com vistas à publicação em nossa revista (www.forumdeliteratura.com) e no livro resultante do evento. Lê-los é perceber que o gênero ensaio tem sido praticado com crescente desenvoltura e a reflexão sobre o que se anda produzindo em prosa e verso no país vem amadurecendo bastante.

Blog: Quais as contribuições mais relevantes do livro “V Encontro do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea – Ensaios e Entrevistas” para quem atua na área de Letras?

Dau Bastos: Um dos aspectos importantes da coletânea é que cada um de seus treze ensaios privilegia uma obra específica, o que, por si só, já chama a atenção para a grande variedade de nossa atualidade literária. Igualmente interessante é perceber que os textos partilham algumas constantes fundamentais do escrito expositivo, mas se singularizam pela abordagem e a forma desenvolvidas pelos seus respectivos autores. Quanto às entrevistas, dão mostra da riqueza dos diálogos que o campus pode travar com a cidade, no ano passado representada por duplas de poetas, ficcionistas, tradutores e editores. Assim, reunimos dados e ideias sobre a produção, a difusão e a recepção da literatura nacional de nossos dias. Com questões elaboradas e um trabalho de edição cuidadoso, tentamos levar as quatro entrevistas literárias do volume ao máximo do rendimento analítico e, assim, contribuir para o fomento do gênero no âmbito dos cursos de Letras.

Blog: Na apresentação da entrevista que fez com os editores Carlos Andreazza e Flávia Iriarte, você menciona que eles defendem o aumento do número de leitores como solução para o barateamento dos livros. Concorda com essa opinião?

Dau Bastos: Sim, na medida em que grandes públicos demandam tiragens elevadas, que, por sua vez, barateiam o custo de cada exemplar. Se nossa vasta população lesse mais, as editoras teriam condições de baixar o preço do livro e, ainda assim, permanecer no azul. Mas essa matemática simples foi mero ponto de partida para um raciocínio mediante o qual os dois editores enfatizaram a necessidade de o país finalmente virar a página vergonhosa dos diferentes analfabetismos e tornar-se uma pátria capaz de universalizar a capacidade de leitura de textos mais complexos, como, por exemplo, a literatura de qualidade. Em síntese, a discussão sobre o preço do livro no Brasil só ganha alguma luz se nos dispomos a dilatar o foco para encarar nosso crônico problema educacional.

Blog: A publicação também aborda a questão do livro digital. Você acredita que, em um futuro próximo, os brasileiros consumirão mais livros através de aparelhos eletrônicos?

Dau Bastos: Como cresci nos confins de Alagoas, tive no livro impresso um tapete voador tão importante que logo cedo fui trabalhar no mercado editorial, do qual só comecei a me afastar no momento em que passei a pagar minhas contas como professor universitário. Como muita gente, gosto de curtir o livro também em sua materialidade. No entanto, faz tempo que recorro cotidianamente a pdfs disponibilizados na internet e há alguns anos venho usando o Kindle como fonte gratuita (ou quase) de livros cuja edição impressa é cara ou de alcance complicado. Em ambos os casos, percebo que os escritos não perdem nada de seu valor apenas porque se acham digitalizados. De modo que, ao ver um percentual cada vez maior de meus alunos recorrendo a seus aparelhinhos para consultar material que lhes envio por e-mail, penso que o impresso é uma maravilha, mas a própria dureza nos ensina que o importante é ter acesso ao texto. Daí minha crença de que aos poucos, nós, brasileiros, recorreremos mais à edição digital. Isso não me impede, porém, de partilhar a aposta, feita pelos editores que entrevistamos, de que os dois tipos de livro não entrarão em conflito e, na verdade, se fortalecerão mutuamente.

Blog: A quem você indicaria a leitura de “V Encontro do Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea – Ensaios e Entrevistas”?


Dau Bastos: Ao pessoal de Letras, que encontrará no volume uma combinação feliz dos gêneros ensaio e entrevista literária, um panorama animador da produção literária atual em nosso país e uma série de provas de afinidade entre nosso currículo e as atividades editoriais. Focalizado pelos autores e editores, mas também pelas duas tradutoras entrevistadas, o mundo do livro foi objeto de discussões que certamente interessarão também aos estudantes e professores da área de Comunicação. Agora, como alguém que lançou seu primeiro romance três décadas atrás e há mais de vinte anos pesquisa a literatura brasileira contemporânea, eu indicaria o livro igualmente aos ficcionistas e poetas tropicais. Faço a sugestão pensando que, entre os contemporâneos verdadeiramente merecedores de aplauso, nota-se um conhecimento dos caminhos percorridos pela literatura que, adquirido no contato com textos de crítica, história e teoria da literatura, faz uma falta devastadora àqueles que se fecham na própria ignorância e se fiam exclusivamente na intuição.

Blog: Agradecemos a entrevista!

Entrevista conduzida por Thaís Araújo, estudante de jornalismo da Uerj e estagiária da EdUERJ.
Foto de Dau Bastos tirada por Elaine Nunes.