quinta-feira, 2 de julho de 2015

Palestra com Jens Andermann, autor de "A Óptica do Estado"

Jens Andermann fará uma palestra no Instituto de Letras da Uerj no dia 7 de julho. O tema é bioarte e conta também com a presença do artista plástico Eduardo Kac.

Tendo em vista essa visita, nada mais oportuno do que comentar seu livro publicado pela EdUERJ em 2014, “A Óptica do Estado: visualidade do poder na Argentina e no Brasil”. Reproduzo alguns trechos que suscitam abstrações sobre história, cultura, poder, urbanismo; enfim, sobre aquilo que molda os grandes centros urbanos da América Latina. O livro de Andermann, com tradução de Guilherme Puccini, é fruto de uma de uma análise sobre  os museus, os mapas e múltiplos objetos concebidos no final do século XIX na Argentina e no Brasil.

Ao passearmos pela Praça XV, dificilmente paramos para concatenar alguma reflexão sobre a estátua que ali paira. Alguns sequer imaginam quem seja a tal figura histórica, quiçá o significado daquela construção. Leia o que o professor disse sobre o Monumento em homenagem ao General Osório erguido no local:

“O monumento reapropriou o espaço urbano e nacional em nome da vitoriosa República. Comandante e chefe brasileiro durante a Guerra do Paraguai de 1865 a 1870, Osorio foi um candidato plausível a herói fundador do nacionalismo militar. Por meio de sua glorificação, a história poderia ser rescrita como uma tradição de luta militar vitoriosa desde sempre, combatendo pela República. A imortalização escultural e fotográfica de Osório foram os componentes visuais de um complexo rito de reapropriação de um espaço urbano que havia sido o centro cerimonial do Estado Imperial. Seu processo ritual também evolveu o sepultamento dos restos do general em uma pequena cripta sob o monumento e o rebaptismo da praça como Praça XV de novembro, em recordação da revolução republicana.”

Aqui é basicamente o fundamento da pesquisa de Andermann:

“É claro que o poder público na américa latina sempre se expressou de formas tanto visuais e sonora quanto discursivas – os elaborados rituais públicos da monarquia imperial entre 1822 e 1889 sendo apenas os mais surpreendente dos muitos  exemplos.  Mas eu argumento que foi somente mais para o fim do século que ás formas visuais foi explicitamente confiada uma função hegemônica.  Os povos têm necessidades de relíquias e de santuários para conservarem a tradição, como afirmou o presidente da Argentina Miguel Juárez Celman em um discurso diante do congresso em 1887.

A proposta da Óptica do Poder:

“Estudarei as maneiras pelas quais essa limitada e contraditória tentativa de hegemonizar a sociedade através das formas visuais expressou a si mesma: não meramente os monumentos e os templos, mas também formas menos explicitas e portanto frequentemente mais persuasivas, como as mostras de museus, os relatos fotográficos de viagem, as pinturas paisagísticas  e históricas, os mapas e os atlas”.

Andermann enfocou a questão do Museu sob uma ótica diferente:

“Enquanto os museus dos anos 1860 e 1870 apoiaram ativamente a organização das exposições de comercio e indústria, para o fim do século, eles gradativamente se configurariam como guardiães dos valores imateriais e permanentes intocados pelo mercado e sua frívola estética do efêmero e do espetacular. Os museus passaram a ser concebidos como um refúgio contra a cultura visual do mercado, anunciando um processo mais geral de diferenciação entre os reinos do Estado e do capital”.

A natureza também possui um papel vital para a “visualidade de um país”, como uma herança colonial:

“A natureza continua a emblematizar o caráter distintivo do nacional porque esse era o modo pelo qual ela representava a nação no mercado mundial, a despeito de sucessivas tentativas de industrialização nacional. Em nossos dias essa performance da natureza encontra seu último refúgio no consumo visual de paisagem do turismo internacional”.

Depois de ler “A Ótica do Estado...”, a conclusão é que o Estado está fundado não em mapas, museus ou fotografias, mas no modo de ver que eles invocam.
Jens Andermann também escreveu sobre cinema brasileiro e argentino. Por ora, os interessados em arte e cultura podem conferir sua palestra no Instituto de Letras.

Palestra: Formas vivas - bioarte latino-americana e a sobrevida das paisagens, por Jens Andermann. Com Eduardo Kac.
Local: Mini auditório da pós-graduação do Instituto de Letras, Uerj Maracanã
Dia: 7 de julho (terça) Hora:17h